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AS PRINCIPAIS CORRENTES DO MOVIMENTO ORGÂNICO E SUAS PARTICULARIDADES |
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DAROLT, Moacir Roberto |
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QUADRO 1 - PRINCÍPIOS BÁSICOS E PARTICULARIDADES
DOS PRINCIPAIS MOVIMENTOS QUE ORIGINARAM OS MÉTODOS ORGÂNICOS DE PRODUÇÃO
Agricultura biodinâmica A agricultura biodinâmica possui
uma base comum com as demais formas de produção orgânicas no que diz respeito
à diversificação e integração das explorações vegetais, animais e florestais;
à adoção de esquemas de reciclagem de resíduos vegetais e animais e ao uso de
nutrientes de baixa solubilidade e concentração. As unidades de produção biodinâmicas, do ponto de
vista mais amplo, têm sido consideradas como um estágio mais avançado da
agricultura orgânica, pois possuem uma abordagem integrada da unidade de
produção comparada a um organismo. Como pode ser observado no quadro 1, a
agricultura biodinâmica difere das demais correntes orgânicas
basicamente em dois pontos. O primeiro é o uso de preparados biodinâmicos,
que são substâncias de origem mineral, vegetal e animal altamente diluídas,
segundo os princípios da homeopatia, aplicados no solo, nas plantas e nos
compostos. Esses preparados têm o objetivo de vitalizar as plantas e
estimular o seu crescimento. O segundo é o fato de efetuar as operações
agrícolas (plantio, poda, raleio, demais tratos culturais e colheita) de
acordo com um calendário astral, concedendo atenção especial à disposição da
lua e dos planetas. É importante ressaltar que as práticas agrícolas
biodinâmicas possuem seu próprio sistema de certificação, fiscalização e
credenciamento de agricultores. Todavia, as unidades de produção biodinâmicas
são agrupadas sob a denominação genérica de agricultura orgânica. Ou seja,
uma unidade de produção biodinâmica também é orgânica, porém o contrário não
é verdadeiro. Agricultura orgânica Alguns anos mais tarde e de forma independente do
movimento biodinâmico, o inglês Sir Albert Howard dá início a uma das mais
difundidas correntes do movimento orgânico, a agricultura orgânica.
Sir Howard trabalhou com pesquisas na Índia, durante aproximadamente 40 anos,
procurando demonstrar a relação da saúde e da resistência humana às doenças
com a estrutura orgânica do solo, publicando obras relevantes entre 1935 e 1940
e, por isso, é considerado o fundador da agricultura orgânica. Um dos princípios básicos defendidos por Howard era
o não uso de adubos artificiais e, particularmente, de adubos químicos
minerais. Em suas obras destacava a importância do uso da matéria orgânica na
melhoria da fertilidade e vida do solo. Reconhecia que o fator principal -
para a eliminação de pragas e doenças, melhoria dos rendimentos e qualidade
dos produtos agrícolas - era a fertilidade natural do solo. Esse novo método foi aprimorado pela pesquisadora
inglesa Lady Eve Balfour, que transformou sua fazenda de Suffolk, na
Inglaterra, em estação experimental. Em 1946, fundou uma entidade chamada Soil
Association, onde realizou diversas atividades e publicações comparando a
qualidade do solo em parcelas orgânicas, mistas e químicas. Seus estudos
foram difundidos, reforçando a importância dos processos biológicos do solo,
além da relação entre solo, planta, animal e a saúde do homem. No final da década de 40 nos Estados Unidos, Jerome
Irving Rodale, também influenciado pelas idéias de Howard, fundou um forte
movimento em prol da agricultura orgânica, publicando posteriormente a
revista Organic Gardening and Farm (OG&F). Mais tarde, foi fundado
o Rodale Institute que realiza pesquisa, extensão e ensino em
agricultura orgânica até os dias de hoje. Agricultura regenerativa Ainda é possível observar na figura 1, um
outro modelo que surgiu a partir da agricultura orgânica proveniente das
idéias de Howard e Rodale, atualmente conhecido como agricultura
regenerativa. Este modelo reforça o fato de o agricultor buscar sua
independência pela potencialização dos recursos encontrados e criados na
própria unidade de produção agrícola ao invés de buscar recursos externos. Agricultura biológica Após os modelos criados por Steiner e Howard,
também no início dos anos 30, outro biologista e homem político Dr. Hans
Müller trabalhou na Suíça em estudos sobre fertilidade de solo e
microbiologia, nascendo a agricultura organo-biológica, mais tarde conhecida
como agricultura biológica. Como mostra o quadro 1, seus
objetivos iniciais eram basicamente socioeconômicos e políticos, ou seja,
buscavam a autonomia do agricultor e a comercialização direta. Essas idéias
se concretizaram muitos anos mais tarde, por volta da década de 1960, quando
o médico austríaco Hans Peter Rusch difundiu este método. Nessa época, as preocupações da corrente de
agricultura biológica vinham de encontro às do movimento ecológico, ou seja,
proteção do meio ambiente, qualidade biológica dos alimentos e
desenvolvimento de fontes de energia renováveis. Por outro lado, diferentemente da escola
biodinâmica, Rusch renunciava ao princípio da autonomia completa da unidade
de produção agrícola. Ou seja, ele achava importante a associação da
agricultura com a pecuária, mas não a considerava essencial. O uso de matéria
orgânica era recomendado, porém o material poderia vir de outras fontes
externas à unidade de produção, diferentemente do que preconizavam os
biodinâmicos. Segundo Rusch, o mais importante era a integração das unidades
de produção com o conjunto das atividades socioeconômicas regionais. Esse
movimento fez numerosos adeptos, destacadamente, na França (Fundação Nature
& Progrès), na Alemanha (Associação Bioland) e na Suíça
(Cooperativas Müller). Os princípios da agricultura biológica foram
introduzidos na França, após a segunda guerra mundial, pelos consumidores e
médicos inquietos com os efeitos dos alimentos sobre a saúde humana. A partir
da década de 1960 até os dias atuais, o desenvolvimento da agricultura
biológica ocorreu em várias etapas ligadas aos contextos socioeconômicos e
aos movimentos de idéias das épocas correspondentes. Foi no início dos anos
60 que o agrônomo Jean Boucher e o médico Raoul Lemaire deram uma conotação
comercial muito forte ao movimento, criando o "método
Lemaire-Boucher", que preconizava, entre outras coisas, a utilização de
substâncias de origem marinha, que era comercializada pela sociedade formada
entre ambos. Dentro desta tendência, cabe destacar ainda a
participação de dois pesquisadores franceses considerados como
personagens-chave no desenvolvimento científico da agricultura orgânica. O
primeiro é o pesquisador Claude Aubert, que publicou L´Agriculture
Biologique ou "A Agricultura Biológica", em que destaca a
importância de manter a saúde dos solos para melhorar a saúde das plantas
(qualidade biológica do alimento) e, em conseqüência, melhorar a saúde do
homem. O segundo personagem importante é Francis Chaboussou, que publicou em
1980, Les plantes malades des pesticides, traduzido para o português
como "Plantas doentes pelo uso de agrotóxico: A teoria da
trofobiose". Sua obra mostra que uma planta em bom estado nutricional
torna-se mais resistente ao ataque de pragas e doenças. Outro ponto que o
autor destaca é que o uso de agrotóxicos causa um desequilíbrio nutricional e
metabólico à planta, deixando-a mais vulnerável e causando alterações na
qualidade biológica do alimento. Em termos empíricos, podemos dizer que as propostas
técnicas da agricultura biológica e orgânica são idênticas. Atualmente, a
diferenciação está mais no sentido da origem da palavra do que em termos de
normas de produção e comercialização. Agricultura natural e permacultura Outra corrente importante do movimento orgânico é a
agricultura natural. Em meados da década de 1930, o
filósofo japonês Mokiti Okada fundava uma religião baseada no princípio da
purificação, hoje Igreja Messiânica, que tinha como um de seus alicerces a
chamada agricultura natural. Essa religião defende que a purificação do espírito
deve ser acompanhada pela purificação do corpo, daí a necessidade de evitar o
consumo de produtos tratados com substâncias tóxicas. O princípio dessa
proposta é o de que as atividades agrícolas devem potencializar os processos
naturais, evitando perdas de energia no sistema. Suas idéias foram reforçadas
e difundidas internacionalmente pelas pesquisas de Masanobu Fukuoka, que
defendia a idéia de artificializar o menos possível a produção, mantendo o
sistema agrícola o mais próximo possível dos sistemas naturais. Na Austrália,
essas idéias evoluíram nas mãos do Dr. Bill Mollison e deram origem a um novo
método conhecido como permacultura que significa um sistema
evolutivo integrado de espécies vegetais e animais perenes (de onde vem o
nome) ou autoperpetuantes úteis ao homem. Algumas particularidades, vistas no quadro 1,
diferenciam a agricultura natural dos outros modelos. A primeira delas
diz respeito ao uso de microrganismos eficientes ou effective
microrganisms, conhecidos como EM. Esses microrganismos são utilizados
como inoculantes para o solo, planta e composto. Outra particularidade é a
não utilização de dejetos animais nos compostos. Argumenta-se que os dejetos
animais aumentam o nível de nitratos na água potável, atraem insetos e
proliferam parasitas. Agricultura alternativa, agroecologia e agricultura
sustentável Nos anos 70, o conjunto das correntes vistas
anteriormente passou a ser chamado de agricultura alternativa.
O termo surgiu em 1977, na Holanda, quando o Ministério da Agricultura e
Pesca publicou um importante relatório, conhecido como "Relatório
Holandês", contendo a análise de todas as correntes não convencionais de
agricultura, que foram reunidas sob a denominação genérica de agricultura
alternativa. Dessa forma, este termo não constitui uma corrente ou uma
filosofia bem definida de agricultura, apenas é útil para reunir as correntes
que se diferenciam da agricultura convencional. A partir dos anos 80, uma disciplina de base
científica conhecida como agroecologia passou a ser
empregada para designar, sobretudo, um conjunto de práticas agrícolas
alternativas, mesmo que seus precursores (Dr. Miguel Altieri e Dr. Stephen
Gliessman da Universidade da Califórnia, EUA) insistissem sobre um conceito
mais amplo, que incorporava um discurso social. Seus autores destacam que no
enfoque da agroecologia troca-se a ênfase de uma pesquisa agropecuária
direcionada à disciplinas e atividades específicas para tratar de interações
complexas entre pessoas, culturas, solos e animais. Por fim, já no final dos anos 80 e durante a década
de 1990, o conceito amplamente difundido, foi o de agricultura
sustentável. Este conceito muito amplo e repleto de
contradições deve ser considerado mais como um objetivo a ser atingido do
que, simplesmente, um conjunto de práticas agrícolas. Entretanto, segundo a
Instrução Normativa que dispõe sobre as normas para produção de produtos
orgânicos, o conceito de sistema orgânico de produção agropecuária abrange
também o termo agricultura sustentável. Desta forma, as várias correntes citadas (biodinâmica,
biológica, natural, permacultura, ecológica, agroecológica, regenerativa
e em alguns casos, a agricultura sustentável) são consideradas como
uma forma de agricultura orgânica, desde que estejam de acordo com as
normas técnicas para produção e comercialização, apesar das pequenas
particularidades existentes. Em síntese, podemos destacar que o ponto comum
entre as diferentes correntes que formam a base da agricultura orgânica é a
busca de um sistema de produção sustentável no tempo e no espaço, mediante o
manejo e a proteção dos recursos naturais, sem a utilização de produtos
químicos agressivos à saúde humana e ao meio ambiente, mantendo o incremento
da fertilidade e a vida dos solos, a diversidade biológica e respeitando a
integridade cultural dos agricultores. |
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