ADUBAÇÃO VERDE NA CANA-DE-AÇUCAR

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O Brasil é um dois maiores produtores de cana-de-açúcar do mundo, atendendo aos mercados internos e externos de açúcar, atuando como gerador de divisas e, também, tendo como meta substituir alguns derivados de petróleo pelo etanol nacional (MURAOKA et al., 1995).
Com a expansão da cultura canavieira e incorporação de novas áreas, geralmente de baixa fertilidade para a produção de açúcar e energia renovável, é de fundamental importância recuperar e manter a fertilidade para alcançar produções econômicas. Portanto, os adubos verdes tem um papel de destaque como condicionadores do solo, fornecedores de nutrientes, N no caso de leguminosas, além de exercer controle contra nematóides e plantas daninhas.

No estado de São Paulo, o estudo do comportamento da cana-de-açúcar em sucessão a adubos verdes foi iniciada por CARDOSO (1956), que verificou um maior rendimento nesta gramínea após o cultivo de Crotalaria juncea do que após mucuna-preta. Em outras regiões testadas, as duas espécies tiveram rendimentos semelhantes, mas sempre superiores as espécies guandu, lablabe e testemunha.
WUTKE & ALVAREZ (1968) observaram que o resíduo de Crotalaria juncea proporcionou aumento da produtividade da cana-de-açúcar e, para o primeiro corte, o efeito da leguminosa foi superior ao N mineral. Em estudo semelhante CACERES (1994), afirma que a adubação verde teve efeito sobre a produtividade da cana-de-açúcar apenas no primeiro corte.
MASCARENHAS et al. (1998), em estudos realizados em Sales Oliveira (SP), mostraram que a cana, após crotalária e mucuna foram os melhores tratamentos. Outra vantagem atribuída a adubação verde, utilizando-se as espécies Crotalaria juncea e mucuna-preta, é o fato de ambas atuarem no controle de nematóides M. incógnita e M. javanica (SHARMA et al. 1984).
CAMPOS (1977) instalou ensaios demonstrativos em solos do tabuleiro do norte do estado do Rio de Janeiro, e obteve resultados positivos utilizando Crotalaria juncea e lablabe. Apesar do uso de ambas as leguminosas terem proporcionado aumentos nas produções de cana, o autor recomenda a C. juncea como a mais rústica, resistente às condições climáticas adversas.
O aumento de produtividade da cana-de-açúcar com a incorporação de leguminosas ao solo ocorrem devido aos diversos benefício que advêm desta prática (MYASAKA, 1984 e MYASAKA & OKAMOTO, 1993), e principalmente pelos teores de nutrientes essenciais que as leguminosas contêm. Estas apresentam elevados valores de N e K2O que poderão proporcionar a total substituição da fertilização mineral para a cana-de-açúcar, pelo menos até o primeiro corte (GLÓRIA et al., 1980 e Albuquerque et al., 1980),

MASCARENHAS et al. (1994) estudaram um sistema de sucessão de culturas envolvendo um único cultivo das leguminosas Crotalaria juncea, mucuna-preta e soja, e tratamentos sem leguminosas (pousio), com ou sem a aplicação de N mineral. Em seguida, a cana-de-açúcar foi implantada e efetuados três cortes. Nos últimos cultivos, a produtividade de cana-de-açúcar após a mucuna-preta e crotalária foram semelhantes e superiores aos demais tratamentos. Na média dos três cultivos de cana-de-açúcar, as sucessões com crotalária e mucuna proporcionaram acréscimos de produtividade respectivos de 27 e 25 t/ha de cana e 3,0 e 3,2 t/ha de açúcar, quando comparados com a testemunha, sem adubo verde. Por outro lado, com a aplicação de N houve aumento de somente 9,0 t/ha de cana e 1,1 t/ha de açúcar, comprovando os benefícios físicos que o pré-cultivo das leguminosas traz à cana-de-açúcar.

Em outro estudo de rotação de culturas, MASCARENHAS et al. (1994) efetuaram cultivo na cana-de-açúcar sucedendo a dois anos de leguminosas, crotalária, mucuna e soja consecutiva ou associativamente, e dois anos de pousio com ou sem a aplicação de N mineral, com o objetivo de avaliar o efeito de dois anos de leguminosas no controle de nematóides, principalmente M. javanica.

Nesse ensaio, o cultivo de cana-de-açúcar, sucedendo a dois anos de crotalária, dois anos de mucuna e soja-mucuna, foi o melhor tratamento, não diferindo entre si, quando se avaliaram os rendimentos médios bianuais da cana-de-açúcar. Quando o segundo cultivo da leguminosa foi soja, independente da espécie anterior, a produtividade da cana-de-açúcar foi menor que a dos tratamentos testados. Isso pode significar que o efeito da matéria orgânica produzida pela mucuna no primeiro cultivo já havia desaparecido, mesmo com o posterior cultivo da soja.

Os tratamentos soja-soja e mucuna-soja proporcionaram respostas estatisticamente semelhantes entre si e ligeiramente superiores ao pousio-pousio + N mineral, provavelmente pela mesma causa apontada anteriormente, ou seja, a baixa produção de matéria orgânica da soja. A testemunha pousio-pousio foi o pior tratamento, e os demais tratamentos apresentaram acréscimos percentuais de 39% (crotalária-crotalária), 33% (mucuna-mucuna), 27% (mucuna-soja), 26% (soja-soja) e 20% (pousio-pousio).
Não obstante o pequeno retorno em produção de cana para os tratamento sucedendo a soja, economicamente este leva vantagem devido à possibilidade de venda dos grãos, uma vez que sua produtividade de massa é pequena.

Trabalhos mais recentes realizados no Pólo Centro Sul reafirmam que a adubação verde exerce um importante papel na recuperação da fertilidade do solo proporcionando aumento da capacidade de troca de cátions , disponibilidade de macro e micronutrientes; formação e estabilização de agregados; melhoria da infiltração de água e aeração; diminuição diuturna da amplitude de variação térmica; controle de nematóides e, no caso de leguminosas, incorporação do nutriente nitrogênio ao solo através da fixação biológica.

Com o objetivo de quantificar a produtividade da cana-de-açúcar, cultivada em sistema de rotação com leguminosas, foi instalado um experimento em Piracicaba, SP, em área do Pólo Regional Centro-Sul (DDD/APTA), durante os anos de 2000 e 2001. A rotação da cana-de-açúcar foi realizada com sete culturas, das quais seis leguminosas: amendoim Tatu, amendoim IAC-Caiapó, Crotalária júncea, mucuna-preta, soja, girassol, feijão mungo e um tratamento testemunha. Cada parcela foi constituída por 5 linhas de 10 metros de comprimento, espaçadas 1,35 metros entre si. O delineamento experimental utilizado foi o de blocos casualizados com cinco repetições.

As leguminosas foram incorporadas ao solo com o auxilio de um triturador em meados de abril de 2001 e em seguida plantada a cana-de-açúcar (variedade IAC-87-3396). Porém devido a um veranico prolongado, houve a necessidade de replantio da cana-de-açúcar na primeira quinzena de outubro de 2001. Após o desenvolvimento durante o período de 12 meses a cana-de-açúcar foi colhida em setembro de 2002, sendo avaliado o peso em kg de uma amostra de cana-de-açúcar contendo 15 colmos de cana e sua produtividade em ton./h. A produtividade do material vegetal (verde e seco) e de grãos das culturas utilizadas em rotação com cana-de-açúcar também foram avaliadas.

Os resultados obtidos da cana planta indicam um incremento de produtividade na cana-de-açúcar quando se faz a rotação com girassol IAC-Uruguai, soja IAC-17, amendoim IAC-Caiapó e Crotalária júncea. Há uma grande evidência de que as relações microbiológicas possa estar afetando positivamente o desempenho da cana-de-açúcar nessa rotação.

A prática da adubação verde com leguminosas na cultura da cana-de-açúcar é recomendada durante a reforma do canavial (CARDOSO, 1956), proporcionando as seguintes vantagens: não implica na perda de um ano agrícola; não interfere na germinação da cana; apresenta custos relativamente baixos; promove aumentos significativos nas produções de cana e de açúcar em pelo menos dois cortes; protege o solo contra a erosão e evita a multiplicação de plantas daninhas.
Diversas leguminosas podem ser usadas na adubação verde, sendo a definição da espécie condicionada a adaptação local, à produção de massa verde, ao preço e a facilidade da obtenção de sementes.

Na Região Centro-Sul do país, as leguminosas mais empregadas são: Crotalaria juncea, mucuna-preta, soja e amendoim. No Nordeste, a mucuna-preta tem merecido especial atenção.
Outro sistema de cultivo utilizado na cana-de-açúcar é o cultivo intercalar, segundo ROMANINI, citado por LOMBARDI & CARVALHO, 1981. As culturas mais freqüentes são feijão, soja e amendoim, por aumentarem o excedente econômico do produtor sem alterarem significativamente a produtividade da cana-de-açúcar. Em geral, as não-leguminosas têm um efeito competitivo, o que pode diminuir a produtividade da cana-de-açúcar.
Esse sistema difere do uso de leguminosas para a adubação verde, pois, nesse caso, o retorno econômico aparece no aumento da produtividade da cana e açúcar, bem como na economia de N mineral.
Com a rotação cana-soja, nas áreas de reforma do canavial, a semeadura da soja é efetuada em outubro, permanecendo na área até fevereiro, mantendo uma cobertura num período crítico de muita chuva. A receita da soja cobre praticamente 60% dos custos de produção da cana, além de dispensar a adubação nitrogenada na cana-planta.

Antes de efetuar o plantio da leguminosa, devemos lembrar de verificar se o controle de plantas foi efetuado com herbicidas, pois muitos produtos usados recentemente podem ser prejudiciais às leguminosas.
Verificar, também, a necessidade de correção de alguns elementos do solo através da análise química, pois as leguminosas são exigentes em P, Ca e Mg, além de serem pouco tolerantes à acidez do solo.
A leguminosa adubo verde deve ser incorporada quando 50% das plantas apresentarem florescimento, e recomenda-se o plantio da cana-de-açúcar 20 dias após esta operação.

Edmilson José Ambrosano(1) Nivaldo Guirado; Raffaella Rossetto; Heitor Cantarella; Gláucia Maria Bovi Ambrosano;Eliana Aparecida Schammass; Paulo César Doimo Mendes; Fabricio Rossi;Paulo Cesar Ocheuse Trivelin; Takashi Muraoka; Fernanda Martinelli, Andrea Cristina Lanzoni; Rogério Haruo Sakai; Priscila Helena da Silva; Fernando Augusto Tassani Bréfere; Ana Paula. Godoy e Aadriano Belizário.
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